quinta-feira, 30 de abril de 2026

Conversa Estranha I — Do primeiro ao último contato

Algumas conversas nunca deveriam começar.






 CAPÍTULO 1

Mal tive tempo de tirar os saltos.
“trrrr trrrr trrrr.” O celular toca.

Simplesmente Ignoro.
“plim”.

As notificações começam.
“plim”.

Tiro a roupa.
“plim”.

Pego a toalha.
“plim”.

Pego o maldito celular.
“plim”.

Abro a porta do banheiro.
“plim”.

Sento no vaso.
Abro a tela.

“trrrrr trrrr trrrr.”

Tela: Número desconhecido.

“trrr trrr”.

Sem paciência, atendo.

— Alô? — digo, meio irritada.
— Vá para o zap agora. É urgente — diz uma voz abafada e nervosa.

O WhatsApp já estava aberto antes mesmo de eu tocar no aplicativo.

 


CAPÍTULO 2

03 horas da manhã

Número Desconhecido: Você tem 5 minutos para se arrumar…

Eu: Errou feio o remetente 😈

(Saí da conversa)

Uma coisa dessas só podia acontecer comigo às três da manhã.

Pego a toalha.
Entro no banho.
Entro debaixo do chuveiro.

trrrr trrrr trrrr.

O celular vibra de novo.

Ignoro.
Ensaboo.
Enxáguo.

Plim.

Visto o pijama.

trrrr trrrr trrrr.

Vou até a cozinha.
Um leite para a fome.

Bum. Bum. Bum.

Batidas na porta.
Chacoalhadas na fechadura.

O copo fica sobre o balcão.

trrrr trrrr trrrr.

O celular toca outra vez.

Na tela: Número Desconhecido.

Atendo, aflita.

— Já disse que você errou o número! É você na porta?

Número Desconhecido:
Não.
Se esconda rápido.
Você tem 10 segundos…
1, 2

O trinco é sacudido com violência.

— Meu Deus… quem então?

Minhas mãos tremem.
Procuro o número de emergência.

Tela bloqueada.
Nervosismo.

Número Desconhecido:
Ele vai entrar…
3, 4

A porta começa a ceder.

Sou o pânico.

— Socorro! — grito no celular.

A ligação cai.

Corro para o quarto.
Tranco-me com mãos que mal obedecem.
Sento no chão, perto do banheiro.

Tento de novo a emergência.
Não completa.

Um chute forte arrebenta a porta da frente.

Respiração ruidosa.
Arfada.

Passos pesados.
Marcados.
Vagarosos.

O celular vibra.

Sem tocar,
a conversa se abre sozinha.

Número Desconhecido:
Fica quieta 😶‍🌫️
Qualquer barulho…
ele te encontra.

Meus olhos se arregalam.
O coração bate na garganta.

Prendo a respiração.

Isso não é real… não é real…

Objetos deslizam pelo chão.
Um sofá é arrastado.
Barulhos constantes.

O medo me domina por dentro.

O grito fica entalado.
As mãos cobrem minha boca.

Não tenho voz.

A tela do celular brilha outra vez.

Número Desconhecido:
É só questão de tempo…
proteja-se…





                                          CAPÍTULO 3 - FINAL


Vasculho o quarto.

Sem barulho.

Só o coração batendo no ouvido.

1... 2... 3... inspiro
4... seguro
5, 6, 7, 8... expiro

Repito o processo.
Lucidez.

Volto a olhar nos cantos do quarto.
Embaixo da cama,
encontro uma bendita muleta esquecida.

Silêncio do outro lado.

Tela brilhando.

Não sou presa.

Posiciono-me atrás da porta.

Do outro lado:

— Sai daí, você corre perigo. Não olhe o celular.

Reconheço a voz.

O vizinho esquisito... ninguém sabe nada sobre ele.

trrrr trrrr trrrr.
O celular toca.

Bum... bum... bum.

— Não atenda o celular... NÃO ATENDA O CELULAR...

Parecia um disco arranhado.

O celular vibra.

Meu corpo reage antes da minha cabeça.

Já estou olhando para a tela.

Número Desconhecido:
Não dê ouvido a ele... ele quer te enganar.
Consegui o link direto com a polícia.
Coloque o fone de ouvido para você se acalmar.

Bum... bum... bum.

— NÃO CONVERSE NO CHAT!

Fone de ouvido.

Número Desconhecido:
Clique rápido... você só tem uma chance.

Meu dedo para sobre a tela.

O vizinho grita lá fora:

— NÃO CONVERSE NO CHAT!

Silêncio dentro de mim.

Cliquei.

Link de ajuda

Na tela, uma imagem que acalma.
🌀
Música hipnótica.

Número Desconhecido:
Clique no áudio.

Meu dedo desce.
Clico.

— Você não está escutando mais nada além de minha voz.
Você está calma e feliz.
Vá para a janela.
Abra a janela.
Pule.

Não sinto mais aflição.

Estou tão tranquila.
É tão bom.

Ergo meus braços.
Um abraço para o mundo.

A janela.

Que madrugada linda.

6º andar.
Tum.

Um corpo estirado no chão.

Número Desconhecido:
(Mensagem apagada.)

*** FIM ***


Outros contos sombrios que você pode gostar:


© Todos os direitos reservados à autora.

Esta obra é de criação original e está protegida por direitos autorais.
Não é permitida a reprodução, distribuição ou adaptação, total ou parcial, sem autorização prévia.

Esta história encontra-se em desenvolvimento e pode sofrer alterações ao longo do processo de escrita.






Nenhum comentário:

Postar um comentário